Intervenção da Ministra da Cultura na atribuição da Medalha de Mérito Cultural à pintora Graça Morais
«É estranha, inesperada, esta voracidade animal com que os doces frutos se organizam na escalada de um rosto." Foi assim que o crítico Fernando de Azevedo falou da obra de Graça Morais, esta mulher que, com os anos, se vai como que transformando num retrato vivo das mulheres e da paisagem agreste que foi fixando através da pintura.
E que rosto é este, e que traço é este, que há mais de 60 anos busca nas cores, na rudeza e na ferocidade de Trás-os-Montes um paradoxal equilíbrio que nos torna devedores de uma memória que nos espanta também ser nossa?
Cara Graça Morais, esta medalha que tenho a honra de lhe atribuir, em nome do Governo português, é inteiramente mérito seu, pelo saber aturado de colocar nas telas as fragas e os rituais, os animais, o vento, as lareiras, as formigas e os homens viris, as rugas dos rostos e as sacadas de vime por cima dos lenços que afagam e protegem as cabeças das mulheres. Por nos ter desenhado uma cartografia intensa e implicada, feita de gestos, rituais, memórias e confissões, assaltada por dúvidas e desafiadora dos ventos, do esquecimento e do não-dito».
Consulte em anexo a intervenção na íntegra.
