Governo prepara novo Código da Comunicação Social e mecanismo para remunerar conteúdos jornalísticos

Medidas incluem apoio à modernização dos media e valorização dos conteúdos utilizados por plataformas de inteligência artificial

Ministro da Presidência, António Leitão Amaro, discursa na conferência "Futuro dos Media".

Ministro da Presidência, António Leitão Amaro, discursa na conferência "Futuro dos Media", a 4 de novembro de 2026 em Lisboa. (Juliana Mendes Correia | MP)

O Governo está a preparar um novo Código da Comunicação Social e uma proposta legislativa para criar um mecanismo de arbitragem que regule o acesso das plataformas de inteligência artificial (IA) aos conteúdos jornalísticos e assegure uma remuneração justa aos órgãos de comunicação social.

Na conferência “Futuro dos Media”, realizada a 4 de novembro, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, o Ministro da Presidência, António Leitão Amaro, defendeu a necessidade de criar condições para que os órgãos de comunicação social possam competir, inovar e crescer na economia digital, preservando a independência do jornalismo.

António Leitão Amaro considerou que o setor enfrenta um “desafio existencial”, agravado pela crescente utilização da IA e pelo papel das grandes plataformas digitais na distribuição e no acesso à informação.

Perante esta realidade, defendeu que a resposta não deve passar por aumentar as restrições aos órgãos de comunicação social, mas por criar condições para que possam tirar partido das novas tecnologias, desenvolver novos modelos de negócio e valorizar o jornalismo profissional, livre, independente e plural.

Novo Código da Comunicação Social em preparação

O Ministro anunciou que a proposta do novo Código da Comunicação Social, cuja conclusão está prevista para o final de 2026, pretende modernizar a legislação do setor, reduzir as restrições e tornar a concorrência entre órgãos de comunicação social e plataformas digitais mais justa.

Também está em análise as regras aplicáveis à publicidade, incluindo o recurso a instrumentos de publicidade segmentada, que permitem uma competição mais equilibrada no mercado.

Plataformas de IA devem pagar por conteúdos jornalísticos

Um dos principais temas onde o Governo pretende intervir é a utilização de conteúdos jornalísticos por modelos de IA, incluindo arquivos e bases de dados.

Leitão Amaro defendeu que os órgãos de comunicação social devem receber um valor justo pela utilização dos conteúdos que produzem, sublinhando que a informação recolhida, verificada e tratada por jornalistas merece ser reconhecida monetariamente.

O modelo estatal português de IA, Amália, irá servir de teste para o modelo de remuneração pelo acesso a conteúdos jornalísticos. A proposta legislativa para a criação do mecanismo de arbitragem para equilibrar as relações económicas entre media e plataformas deverá ser apresentada ainda este ano.

Apoiar a modernização e a transformação digital dos media

O Ministro defendeu igualmente a criação de um Fundo de Apoio à Modernização e Digitalização dos Media, com financiamento essencialmente público e um modelo de governação que assegure a independência dos órgãos de comunicação social face ao poder político.

O objetivo é apoiar a inovação tecnológica, a transformação dos modelos de produção e distribuição de conteúdos e a capacitação dos profissionais para os novos formatos digitais e multimédia, de modo a adaptar a oferta jornalística aos hábitos de consumo das novas gerações.

Reforço do serviço público e da autorregulação profissional do jornalismo

Estão em curso investimentos na RTP e na Lusa, destinados à modernização tecnológica, à capacitação dos profissionais e ao reforço da sustentabilidade do serviço público de comunicação social.

Relativamente à Lusa, o Ministro da Presidência destacou o objetivo de reduzir em cerca de 90% os preços dos serviços prestados aos órgãos de comunicação social, a partir de janeiro de 2027, contribuindo para melhorar o acesso à informação jornalística profissional.

Há ainda a previsão de um financiamento até dois milhões de euros para fortalecer a autorregulação profissional e a valorização do jornalismo.

Liberdade e pluralismo como princípios fundamentais

Os desafios da desinformação e a necessidade de preservar a liberdade de expressão e o pluralismo informativo também foram tema na conferência.

O Ministro rejeitou a criação de mecanismos oficiais de definição da verdade, defendendo que o combate à desinformação deve assentar na independência dos órgãos de comunicação social, no escrutínio público e na responsabilidade editorial.

A conferência “Futuro dos Media” reuniu responsáveis de alguns dos principais grupos de comunicação social portugueses, jornalistas e especialistas para debater a credibilidade da informação, a sustentabilidade económica do setor e os desafios colocados pela transformação digital.

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